Como não poderia deixar de ser, além de sempre mudar o curso dos meus textos, acabei por mudar o curso do blog.
Então, para voltar ao foco (apenas um pouco), vou falar sobre um livro de crônicas que li e adorei. O nome do livro é : Cem Melhores Crônicas - que na verdade são 129 (pelo visto não sou a única a não conseguir se manter nas margens!) de Mário Prata.
O olhar que ele põe sobre o mundo é algo muito peculiar, e ver situações corriqueiras do cotidiano através das impressões de Mário Prata é algo que absorve a atenção de qualquer pessoa. Simples e inteligentes, as crônicas retratam observações da vida de uma forma que poucos conseguem fazer.
Amigo de Vinícios, Chico, Luis Fernando Veríssimo e diversos outros escritores/compositores incríveis, não é raro que os vemos citados em alguns dos textos, em situações se não altamente interessantes, extremamente hilárias.
E é ao escrever sobre Mário que me pego rindo sozinha, apenas por lembrar uma de suas crônicas. O nome é "Criança diz cada uma...", que conta pérolas ditas por crianças, como só elas sabem fazer. Segue um trecho:
" Aninha já estava com dois anos. Loira, linda. Nunca tinha cortado o cabelo. Eram amarelo-ouro e cacheados. "Parecia um anjinho barroco", diz a mãe coruja.
Lá um dia, a mãe pega uma enorme tesoura e resolve dar um trato na cabeça da criança, pois as melenas já estavam nos ombros. Chama a menina, que chega ressabiada, olhando a cintilante tesoura.
- Mamãe vai cortar a cabelinho da Aninha.
Aninha olha para a tesoura, se apavora.
- Não quero, não quero, não quero!!!
- Não dói nada...
- Não quero!, já disse.
E sai correndo. A mãe sai correndo atrás. Com a tesoura na mão. A muito custo, consegue tirar a filha que estava debaixo da cama, chorando, temendo o pior. Consola a filha. Sentam-se na cama. Dá um tempo. A menina pára de chorar. Mas não tira o olho da tesoura.
- Olha, meu amor, a mamãe promete cortar só dois dedinhos.
Aninha abre as duas mãos, já submissa, desata o choro, perguntando, olhando para a enorme tesoura e para a própria mãozinha:
- Quais deles, mãe?"